<?xml version="1.0" encoding="UTF-8"?><rss xmlns:dc="http://purl.org/dc/elements/1.1/" xmlns:content="http://purl.org/rss/1.0/modules/content/" xmlns:atom="http://www.w3.org/2005/Atom" version="2.0" xmlns:itunes="http://www.itunes.com/dtds/podcast-1.0.dtd" xmlns:googleplay="http://www.google.com/schemas/play-podcasts/1.0"><channel><title><![CDATA[Cartografia da Intensidade]]></title><description><![CDATA[Uma investigação sobre altas habilidades, multipotencialidade e intensidade. Escrita por quem vive o que investiga.]]></description><link>https://cartografiaintensidade.substack.com</link><image><url>https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!qEE6!,w_256,c_limit,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2Fdc2e16dd-cc9e-4231-953e-784de6a05a93_870x870.png</url><title>Cartografia da Intensidade</title><link>https://cartografiaintensidade.substack.com</link></image><generator>Substack</generator><lastBuildDate>Fri, 24 Jul 2026 11:53:37 GMT</lastBuildDate><atom:link href="https://cartografiaintensidade.substack.com/feed" rel="self" type="application/rss+xml"/><copyright><![CDATA[Andrea Salgueirinho]]></copyright><language><![CDATA[pt-br]]></language><webMaster><![CDATA[cartografiaintensidade@substack.com]]></webMaster><itunes:owner><itunes:email><![CDATA[cartografiaintensidade@substack.com]]></itunes:email><itunes:name><![CDATA[Andrea Salgueirinho]]></itunes:name></itunes:owner><itunes:author><![CDATA[Andrea Salgueirinho]]></itunes:author><googleplay:owner><![CDATA[cartografiaintensidade@substack.com]]></googleplay:owner><googleplay:email><![CDATA[cartografiaintensidade@substack.com]]></googleplay:email><googleplay:author><![CDATA[Andrea Salgueirinho]]></googleplay:author><itunes:block><![CDATA[Yes]]></itunes:block><item><title><![CDATA[008° A louca dos livros e dos cursos]]></title><description><![CDATA[Perguntas que a aula n&#227;o tinha]]></description><link>https://cartografiaintensidade.substack.com/p/008-a-louca-dos-livros-e-dos-cursos</link><guid isPermaLink="false">https://cartografiaintensidade.substack.com/p/008-a-louca-dos-livros-e-dos-cursos</guid><dc:creator><![CDATA[Andrea Salgueirinho]]></dc:creator><pubDate>Thu, 23 Jul 2026 14:04:29 GMT</pubDate><enclosure url="https://substack-post-media.s3.amazonaws.com/public/images/17631110-093e-4c25-94cb-1ba36c9ab211_1402x1122.png" length="0" type="image/jpeg"/><content:encoded><![CDATA[<h3><strong><span data-color="#5c6657" style="color: rgb(92, 102, 87);">Mapeamento Anterior</span></strong></h3><div class="digest-post-embed" data-attrs="{&quot;nodeId&quot;:&quot;b290e110-338f-4e1b-b50b-18481d88cdc6&quot;,&quot;caption&quot;:&quot;Mapeamento Anterior&quot;,&quot;cta&quot;:null,&quot;showBylines&quot;:true,&quot;showDescription&quot;:true,&quot;showImage&quot;:true,&quot;size&quot;:&quot;sm&quot;,&quot;isEditorNode&quot;:true,&quot;title&quot;:&quot;007&#176; Lavanda que tem sabor&quot;,&quot;publishedBylines&quot;:[{&quot;id&quot;:63995042,&quot;name&quot;:&quot;Andrea Salgueirinho&quot;,&quot;bio&quot;:&quot;Viagens, pesquisas e escrita sobre coragem. 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N&#227;o era a primeira vez que fazia aquilo, estudar com intensidade, mergulhar fundo num assunto que a movia. Mas nessa, algo ficou diferente.</p><p>Ela chegava ao fim do racioc&#237;nio antes da aula terminar. A professora, experiente, come&#231;ou a ficar desconfort&#225;vel.</p><p>A rela&#231;&#227;o foi ficando dif&#237;cil de lidar, ela disse. E ent&#227;o descreveu: dias normais, e de repente a professora fechada, sem aviso nenhum. Foi a&#237; que ela percebeu, ou achou que percebeu, ela mesma n&#227;o tinha certeza. As aulas dif&#237;ceis vinham depois das perguntas. Pelo menos era o que parecia.</p><p>N&#227;o era a primeira forma&#231;&#227;o. Tinha feito outras antes, duas, tr&#234;s e perguntava porque queria aproveitar a experi&#234;ncia da professora. Mas ela estava entendendo outra coisa.</p><p>Quando me contou isso, Amanda usou um exemplo para descrever como achava que a professora a via: &#8220;parecia que eu estava fazendo chamada oral da professora&#8221; mas era s&#243; a curiosidade e a vontade de ir mais fundo no tema.  </p><p>O laudo chegou depois. Ela se autodenominava &#8220;a louca dos livros e dos cursos&#8221;, e quando leu sobre sobreexcitabilidade intelectual pela primeira vez, reconheceu cada detalhe. O que<em> Dabrowski</em> chama assim, Amanda reconheceu na pr&#243;pria descri&#231;&#227;o: a mente que j&#225; est&#225; l&#225; na frente, esperando o resto chegar.</p><p>Num ambiente que avan&#231;a em ritmo linear, isso aparece como excesso. Amanda sabia disso. O que ela ainda estava aprendendo era onde parar.</p><p>Quando entra em hiperfoco, ela me disse que fica ligada no 220. O tempo some, o corpo funciona como se o limite fosse outro. Duas forma&#231;&#245;es simult&#226;neas, cursos avulsos, trabalho, um neg&#243;cio come&#231;ando a ganhar forma. Cada frente tinha interesse real. A mente que n&#227;o tem bot&#227;o de pausa n&#227;o percebe quando j&#225; passou do limite.</p><p>Em dezembro o corpo decidiu por ela. Ins&#244;nia, depois um esgotamento que n&#227;o passava dormindo. Ela parou.</p><p>Quando conversamos depois disso, ela estava retomando aos poucos. Tinha sa&#237;do da forma&#231;&#227;o com a rela&#231;&#227;o dif&#237;cil. Passou a estudar o que a movia, com carga mais leve, sem agenda que precisasse ser cumprida. &#8220;Aprendi a confiar no que j&#225; sei&#8221;, ela disse.</p><p>Fiquei pensando nisso depois que a conversa terminou.</p><div><hr></div><h3><strong><span data-color="#5c6657" style="color: rgb(92, 102, 87);">Coordenada</span></strong></h3><p>Na primeira prova de F&#237;sica, S&#244;nia Guimar&#227;es tirou seis. A professora virou para ela e disse: &#8220;Voc&#234; nunca vai aprender F&#237;sica.&#8221;</p><p>S&#244;nia aprendeu.</p><p>Nasceu em S&#227;o Paulo, filha de uma mulher que administrava um buffet de festas sem nunca ter lido um livro de administra&#231;&#227;o, que criou quatro filhos sozinha quando o marido adoeceu e precisou ser internado. A persist&#234;ncia que S&#244;nia descreve na m&#227;e &#233; a mesma que aparece na pr&#243;pria trajet&#243;ria: quando o interesse &#233; real, o obst&#225;culo vira dado a ser resolvido.</p><p>Na gradua&#231;&#227;o em F&#237;sica, no segundo ano, um professor falou sobre semicondutores. Disse que eles fariam a revolu&#231;&#227;o industrial. S&#244;nia se apaixonou por semicondutores e nunca mais largou. O que a manteve foi o que ela descreve assim: &#8220;sempre tenho alguma coisa para pesquisar, sempre tem uma novidade. E quando sai uma novidade, j&#225; sai uma novidade em cima para corrigir os erros da novidade anterior.&#8221;</p><p>Quando foi pedir bolsa de inicia&#231;&#227;o cient&#237;fica, disseram que ela nunca usaria F&#237;sica para nada. Ofereceram uma bolsa para dan&#231;ar folclore, mesma quantia. S&#244;nia aceitou a dan&#231;a e seguiu na F&#237;sica assim mesmo.</p><p>Fez mestrado, depois doutorado em Manchester. Quando voltou com o t&#237;tulo, colegas descreveram a experi&#234;ncia como passeio pela Europa. Quando chegou ao ITA, primeira mulher negra a lecionar na institui&#231;&#227;o, encontrou alunos que a olhavam como &#8220;o tipo de pessoa que limpa a casa deles.&#8221; Ela corrigia os relat&#243;rios.</p><p>A professora que disse que ela nunca aprenderia F&#237;sica estava avaliando o que conseguia ver. Os alunos do ITA tamb&#233;m. O processamento de S&#244;nia n&#227;o cabia na moldura que cada um desses ambientes tinha dispon&#237;vel.</p><div><hr></div><h3><strong><span data-color="#5c6657" style="color: rgb(92, 102, 87);">Notas da Cartografia</span></strong></h3><p>A sensa&#231;&#227;o de que n&#227;o vai dar tempo: de estudar tudo, de ir a todos os lugares, de terminar qualquer coisa direito. Li sobre isso num texto de Dabrowski. Ele chamou de sobreexcitabilidade intelectual. Na &#233;poca achei o nome grande demais para uma coisa t&#227;o simples. </p><p>Na pr&#243;xima edi&#231;&#227;o, a imaginativa.</p><p class="button-wrapper" data-attrs="{&quot;url&quot;:&quot;https://cartografiaintensidade.substack.com/subscribe?&quot;,&quot;text&quot;:&quot;Assine agora&quot;,&quot;action&quot;:null,&quot;class&quot;:null}" data-component-name="ButtonCreateButton"><a class="button primary" href="https://cartografiaintensidade.substack.com/subscribe?"><span>Assine agora</span></a></p><div><hr></div><p><em><span>Este &#233; um dos territ&#243;rios de Andrea Salgueirinho. </span><a href="https://coragemlab.github.io/ecosystem/"><span>Conhe&#231;a o ecossistema completo.</span></a></em></p><p></p>]]></content:encoded></item><item><title><![CDATA[007° Lavanda que tem sabor]]></title><description><![CDATA[Sobre seletividade sensorial]]></description><link>https://cartografiaintensidade.substack.com/p/007-lavanda-que-tem-sabor</link><guid isPermaLink="false">https://cartografiaintensidade.substack.com/p/007-lavanda-que-tem-sabor</guid><dc:creator><![CDATA[Andrea Salgueirinho]]></dc:creator><pubDate>Thu, 16 Jul 2026 21:59:37 GMT</pubDate><enclosure url="https://substack-post-media.s3.amazonaws.com/public/images/92b1e315-0fc6-47c1-9f35-bd62f33db8a3_1024x1025.jpeg" length="0" type="image/jpeg"/><content:encoded><![CDATA[<h3><strong><span data-color="#5c6657" style="color: rgb(92, 102, 87);">Mapeamento Anterior</span></strong></h3><div class="digest-post-embed" data-attrs="{&quot;nodeId&quot;:&quot;53f5fc32-8d0d-40eb-838d-da20e76a7c4d&quot;,&quot;caption&quot;:&quot;Mapeamento Anterior&quot;,&quot;cta&quot;:null,&quot;showBylines&quot;:true,&quot;showDescription&quot;:true,&quot;showImage&quot;:true,&quot;size&quot;:&quot;sm&quot;,&quot;isEditorNode&quot;:true,&quot;title&quot;:&quot;006&#176; O que o corpo faz sem avisar &quot;,&quot;publishedBylines&quot;:[{&quot;id&quot;:63995042,&quot;name&quot;:&quot;Andrea Salgueirinho&quot;,&quot;bio&quot;:&quot;Viagens, pesquisas e escrita sobre coragem. Sou uma escritora em expedi&#231;&#227;o pelo mundo e uma pesquisadora em campo. Registro hist&#243;rias, estudos e o que encontro quando a coragem precisa entrar em cena.&quot;,&quot;photo_url&quot;:&quot;https://substack-post-media.s3.amazonaws.com/public/images/70598ff0-57a9-4c23-bac6-bbef174b24a0_1179x1177.png&quot;,&quot;is_guest&quot;:false,&quot;bestseller_tier&quot;:null}],&quot;post_date&quot;:&quot;2026-07-09T21:24:30.069Z&quot;,&quot;cover_image&quot;:&quot;https://substack-post-media.s3.amazonaws.com/public/images/811b244c-e35a-492c-b246-6853aaff958d_1536x1024.png&quot;,&quot;cover_image_alt&quot;:null,&quot;canonical_url&quot;:&quot;https://cartografiaintensidade.substack.com/p/006-o-que-o-corpo-faz-sem-avisar&quot;,&quot;section_name&quot;:null,&quot;video_upload_id&quot;:null,&quot;id&quot;:206302230,&quot;type&quot;:&quot;newsletter&quot;,&quot;reaction_count&quot;:2,&quot;comment_count&quot;:0,&quot;publication_id&quot;:9269418,&quot;publication_name&quot;:&quot;Cartografia da Intensidade&quot;,&quot;publication_logo_url&quot;:&quot;https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!qEE6!,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2Fdc2e16dd-cc9e-4231-953e-784de6a05a93_870x870.png&quot;,&quot;belowTheFold&quot;:false,&quot;youtube_url&quot;:null,&quot;show_links&quot;:null,&quot;feed_url&quot;:null}"></div><h5><span data-color="#5c6657" style="color: rgb(92, 102, 87);">Os outros aprendem sobre voc&#234;, antes de voc&#234;</span></h5><div><hr></div><p><em><span>Esta &#233; a segunda de cinco edi&#231;&#245;es sobre as sobreexcitabilidades de Dabrowski: cinco modos de funcionamento que aparecem com frequ&#234;ncia em perfis de alta intensidade.</span></em></p><div><hr></div><p>Fui tomar caf&#233; num restaurante. Queria aquele, especificamente, pela parte de dentro.</p><p>Sentamos. O barulho era o de qualquer lugar movimentado. Nada fora do comum para quem estava ali. Apesar da cozinha ficar longe da mesa, vinha um som cont&#237;nuo de l&#225;: talheres sendo manipulados, metal encostando em metal, o tilintar da organiza&#231;&#227;o antes do servi&#231;o come&#231;ar.</p><p>O barulho era baixo. Passava despercebido para quem estava ali.</p><p>S&#243; eu ouvia daquele jeito.</p><p>Meu filho disse que era natural, aquele barulho fazia parte. Estava certo. E mesmo assim foi embora comigo. Encontramos outro lugar, mais barulhento em outros canais, mas sem os talheres. O sistema encontrou o que precisava: n&#227;o sil&#234;ncio, aus&#234;ncia daquela frequ&#234;ncia espec&#237;fica.</p><p>A sensorial de alta intensidade &#233; seletividade. Certos canais chegam com um volume que os outros canais n&#227;o t&#234;m. O sistema amplifica frequ&#234;ncias espec&#237;ficas. O resto passa.</p><p>A lavanda eu n&#227;o cheiro. Eu provo.</p><p>O &#243;leo essencial abre e o que vem n&#227;o &#233; exatamente um aroma: &#233; sabor na boca, textura na l&#237;ngua, algo entre floral e herbal que se deposita antes de qualquer pensamento sobre ele. J&#225; tentei descrever isso e as pessoas olham com aquela cara de quem acha que &#233; for&#231;a de express&#227;o, met&#225;fora, jeito de falar. &#201; o que acontece.</p><p>Isso tem nome: sinestesia. </p><p>J&#225; escrevi aqui sobre o olfato, a lata de sabonete de canela num arm&#225;rio fechado, a nota de flor numa cerveja artesanal, era o mesmo sistema.</p><p>O isopor eu n&#227;o suporto. A textura e o som quando ele atrita em si mesmo. Sinto antes de tocar. &#192;s vezes basta ver algu&#233;m manuseando.</p><p>Com a nata em cima do leite tenho a mesma sensa&#231;&#227;o. N&#227;o sei se isso &#233; sensorialidade ou prefer&#234;ncia comum, e n&#227;o quero ser leviana em concluir. O que posso dizer &#233; que a resposta do corpo n&#227;o parece neutra.</p><p>Meu filho mais novo tinha quatro anos quando colocamos na aula de bateria. Ele amava bateria, baquetas, qualquer superf&#237;cie que respondesse ao toque. A professora notou na primeira aula. Na segunda, disse que ele estava sofrendo com o barulho.</p><p>Tirei.</p><p>Ficou anos sem tocar. Voltou depois, quando o corpo j&#225; tinha outro manejo, e o som que antes era grande demais passou a ser exatamente o que ele precisava.</p><p>N&#227;o sei se o que ele viveu era sobreexcitabilidade sensorial de <em>Dabrowski</em>. Poderia ser sensibilidade de uma crian&#231;a muito pequena num ambiente acusticamente intenso.</p><h3><strong><span data-color="#5c6657" style="color: rgb(92, 102, 87);">Coordenada</span></strong></h3><p>O pai morreu antes que ela tivesse mem&#243;ria dele. Era m&#250;sico. O que ficou foi o ambiente: a m&#227;e cantava em ranchos, o tio recebia ritmistas em casa para rodas de choro, a m&#250;sica n&#227;o era ensinada, era o ar.</p><p>Aos dez anos, a m&#227;e adiantou sua idade no registro para matricul&#225;-la no Instituto Profissional Feminino um ano antes do permitido. L&#225; encontrou L&#250;cia Villa-Lobos como professora de m&#250;sica. Num internato pensado para formar costureiras e datil&#243;grafas, ela foi a que se destacou entre mais de trezentas alunas pela habilidade musical.</p><p>Nos fins de semana em que podia sair, ia para a casa do tio Dion&#237;sio, trombonista e cavaquinista, e entrava nas rodas de choro. O mundo erudito do Instituto e o samba popular do tio viveram nela sem atrito. O ouvido dela n&#227;o precisava escolher.</p><p>O mundo a conheceu como Dona Ivone Lara. Compositora, cantora, assistente social que atendia no mesmo territ&#243;rio onde sambava. Primeira mulher a assinar samba-enredo numa escola de samba do Rio. </p><p>O que o arquivo musical dela guarda n&#227;o &#233; s&#243; melodia. &#201; a evid&#234;ncia de um sistema sensorial que absorveu tudo que chegou: choro, samba, m&#250;sica erudita, a voz da m&#227;e nos ranchos, o p&#225;ssaro ti&#234;-sangue ao qual cantava versinhos quando crian&#231;a. A trajet&#243;ria dela aparece na literatura sobre dota&#231;&#227;o em mulheres negras porque o padr&#227;o &#233; leg&#237;vel demais para ignorar.</p><p>Aos 97 anos, ainda cantava.</p><h3><strong><span data-color="#5c6657" style="color: rgb(92, 102, 87);">Notas da Cartografia</span></strong></h3><p>Sobreexcitabilidade sensorial, nos termos de <em>Dabrowski</em>: amplifica&#231;&#227;o seletiva. Certas frequ&#234;ncias chegam em canais que os outros canais n&#227;o t&#234;m. O filtro vem depois, se vier. A sinestesia &#233; uma de suas formas mais documentadas: canais que se cruzam sem aviso, sem media&#231;&#227;o cognitiva. O cruzamento acontece antes de qualquer decis&#227;o sobre ele.<br><br>Na pr&#243;xima edi&#231;&#227;o: processamento sem pausa.</p><h6></h6><p class="button-wrapper" data-attrs="{&quot;url&quot;:&quot;https://cartografiaintensidade.substack.com/subscribe?&quot;,&quot;text&quot;:&quot;Assine agora&quot;,&quot;action&quot;:null,&quot;class&quot;:null}" data-component-name="ButtonCreateButton"><a class="button primary" href="https://cartografiaintensidade.substack.com/subscribe?"><span>Assine agora</span></a></p><div><hr></div><p><em><span>Este &#233; um dos territ&#243;rios de Andrea Salgueirinho. </span><a href="https://coragemlab.github.io/ecosystem/"><span>Conhe&#231;a o ecossistema completo.</span></a></em></p>]]></content:encoded></item><item><title><![CDATA[006° O que o corpo faz sem avisar ]]></title><description><![CDATA[Os outros aprendem sobre voc&#234;, antes de voc&#234;]]></description><link>https://cartografiaintensidade.substack.com/p/006-o-que-o-corpo-faz-sem-avisar</link><guid isPermaLink="false">https://cartografiaintensidade.substack.com/p/006-o-que-o-corpo-faz-sem-avisar</guid><dc:creator><![CDATA[Andrea Salgueirinho]]></dc:creator><pubDate>Thu, 09 Jul 2026 21:24:30 GMT</pubDate><enclosure url="https://substack-post-media.s3.amazonaws.com/public/images/811b244c-e35a-492c-b246-6853aaff958d_1536x1024.png" length="0" type="image/jpeg"/><content:encoded><![CDATA[<h3><strong><span data-color="#50584b" style="color: rgb(80, 88, 75);">Mapeamento Anterior</span></strong></h3><div class="digest-post-embed" data-attrs="{&quot;nodeId&quot;:&quot;91ece20f-292e-49b9-8c5d-1b8cf25ea482&quot;,&quot;caption&quot;:&quot;Mapeamento Anterior&quot;,&quot;cta&quot;:null,&quot;showBylines&quot;:true,&quot;showDescription&quot;:true,&quot;showImage&quot;:true,&quot;size&quot;:&quot;sm&quot;,&quot;isEditorNode&quot;:true,&quot;title&quot;:&quot;005&#176; Ocupar o espa&#231;o&quot;,&quot;publishedBylines&quot;:[{&quot;id&quot;:63995042,&quot;name&quot;:&quot;Andrea Salgueirinho&quot;,&quot;bio&quot;:&quot;Viagens, pesquisas e escrita sobre coragem. Sou uma escritora em expedi&#231;&#227;o pelo mundo e uma pesquisadora em campo. 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Fiquei sem rea&#231;&#227;o por um segundo. Eu seguia alheia ao ritmo que ele conviveu por anos, o corpo acompanhando alguma m&#250;sica interna que eu nem percebia que estava tocando.</p><p>Tem coisas que os outros percebem antes de voc&#234;.</p><p>Desde crian&#231;a, enrolo um cachinho do cabelo em reuni&#245;es, conversas longas ou em qualquer momento em que a cabe&#231;a precise de uma ancoragem f&#237;sica enquanto continua em movimento. O gesto era t&#227;o constante que virou material de imita&#231;&#227;o. Tenho fotos de amigas fingindo enrolar os pr&#243;prios cachos, me zoando com carinho, porque de tanto me ver fazer aquilo j&#225; sabiam reproduzir. Elas conheciam aquele movimento melhor do que eu; tinham dado um nome para ele antes de mim.</p><p>Quando o assunto numa reuni&#227;o me interessava, eu focava completamente. Quando faltava interesse, o corpo encontrava sa&#237;da no desenho e na escrita. Havia tamb&#233;m o movimento leve dos p&#233;s sob a mesa: um sistema que precisava de din&#226;mica para continuar processando o que estava dentro.</p><p>Aprendi a nadar numa academia militar perto de casa, quando tinha onze anos. O professor ensinava para os outros; eu via e entrava na &#225;gua fazendo. Bastou observar uma vez. O corpo fez o resto. Esse mesmo registro me colocou como atacante do time de futebol da escola em 1985. Ainda naquele ano, criei uma coreografia de <em>All Night Long</em> para o concurso de final de ano. Ganhamos. Sa&#237; do bairro, a vida foi para outros lugares, e anos depois descobri que as meninas continuavam apresentando aquela mesma coreografia todo final de ano.</p><p>A minha coordenadora no servi&#231;o p&#250;blico chamava o que via em mim de S&#237;ndrome do Pensamento Acelerado, dizendo que eu falava muito e interrompia as pessoas. A observa&#231;&#227;o tinha fundamento: o que ela testemunhava era o processamento chegando ao destino antes da frase terminar. Ainda hoje mordo a l&#237;ngua e o l&#225;bio para focar no que a pessoa est&#225; falando enquanto o racioc&#237;nio espera. Quando era menor, mordia o dedo. O gesto mudou com as d&#233;cadas, mas o movimento interno permanece.</p><p>Cresci ouvindo que talvez eu precisasse fazer teste de surdez porque falava alto e gesticulava com o corpo inteiro. O volume de fora era proporcional ao de dentro, a gesticula&#231;&#227;o funcionava como um pensamento precisando de mais canais de sa&#237;da do que a fala sozinha comportava.</p><p>O batuque em casa tamb&#233;m era constante. Superf&#237;cie dispon&#237;vel virava tambor, dois pauzinhos na m&#227;o do meu ca&#231;ula viravam baquetas quando ele tinha s&#243; dois anos. A professora sugeriu uma aula de bateria e, pouco tempo depois, mudei o ambiente dele para que pudesse tocar.</p><h3><strong><span data-color="#50584b" style="color: rgb(80, 88, 75);">O Represamento</span></strong></h3><p>Quando o canal f&#237;sico fecha, o processamento n&#227;o para. Continua, mas sem sa&#237;da. O sistema redistribui a carga para onde encontra espa&#231;o: tens&#227;o muscular sem origem aparente e ins&#244;nia acumulada. A irritabilidade, quando chega, nem encontra explica&#231;&#227;o de onde veio.</p><p>O fechamento do canal vem da calibra&#231;&#227;o acumulada. Corpo em movimento ocupa espa&#231;o, e ocupar espa&#231;o tem consequ&#234;ncias conhecidas.</p><p>A menina expansiva ocupa espa&#231;o demais. A adolescente que gesticula &#233; barulhenta. Quando a mulher chega na reuni&#227;o, a senten&#231;a j&#225; vem pronta: ela &#233; dif&#237;cil.</p><p>Tem uma palavra que resume o veredito social para esse corpo: exibida. E a resposta aprendida &#233; andar de cabe&#231;a baixa.</p><p>O <em>masking</em> se instala sem avisar. Nenhuma anamnese d&#225; conta da fadiga acumulada para sustentar essa performance.</p><h3><strong><span data-color="#50584b" style="color: rgb(80, 88, 75);">Coordenada</span></strong></h3><p>Aos sete anos, Marta jogava futebol com os primos e os colegas de Dois Riachos, em Alagoas. Escondia o jogo da fam&#237;lia porque, no in&#237;cio da d&#233;cada de noventa, no nordeste brasileiro, futebol para menina era coisa que se fazia &#224;s escondidas. Quando deixavam: ela ocupava os espa&#231;os que cediam quando achavam que ela n&#227;o seria boa o suficiente para atrapalhar. O corpo dela entendia o jogo antes das instru&#231;&#245;es. Entrava em campo e j&#225; sabia.</p><p>Aos quatorze anos, com incentivo do t&#233;cnico, viajou para ser avaliada por grandes clubes no Rio de Janeiro. Aos dezenove, estava na sele&#231;&#227;o brasileira.</p><p>O futebol feminino havia sido proibido no Brasil at&#233; 1979. Marta nasceu em 1986. Aprendeu no campo de terra com quem aceitasse entrar no jogo.</p><p>Terminou escolhida seis vezes como a melhor jogadora do mundo.</p><h3><strong><span data-color="#50584b" style="color: rgb(80, 88, 75);">Notas da Cartografia</span></strong></h3><p>Sobreexcitabilidade psicomotora &#233; o termo que <em>Dabrowski </em>usou para descrever um sistema nervoso que opera com um excedente de energia neuromuscular. Esse excedente precisa de sa&#237;da f&#237;sica para o processamento acontecer. O movimento &#233; parte do pensamento. Sem ele, o pensamento continua mas o sistema fica represado.</p><p><em>Dabrowski </em>mapeou cinco sobreexcitabilidades ao todo. A psicomotora &#233; a mais vis&#237;vel, interpretada de imediato como agita&#231;&#227;o. Quem olha de fora costuma carimbar como impulsividade o que &#233; apenas a incapacidade do ambiente de conter esse ritmo: a defini&#231;&#227;o quase sempre vem como falta de controle.</p><p>Para mulheres, tem uma camada a mais: a socializa&#231;&#227;o ensina desde cedo que corpo em movimento ocupa espa&#231;o demais. O que em meninos vira energia, em meninas vira problema de comportamento. O movimento some para dentro ou se disfar&#231;a em gestos menores. O processamento continua, mas sem o canal que ele precisava.</p><p><em>Masking</em> &#233; o processo de camuflar comportamentos, rea&#231;&#245;es ou modos de funcionamento para corresponder ao que o ambiente espera. Em pessoas com AH/SD, o <em>masking</em> raramente &#233; consciente: &#233; uma calibra&#231;&#227;o que o sistema aprende a fazer antes de qualquer decis&#227;o. Na sobreexcitabilidade psicomotora, ele tem endere&#231;o f&#237;sico: &#233; o corpo que aprendeu, antes de qualquer instru&#231;&#227;o expl&#237;cita, quanto espa&#231;o pode ocupar sem criar problema.</p><p></p><p class="button-wrapper" data-attrs="{&quot;url&quot;:&quot;https://cartografiaintensidade.substack.com/subscribe?&quot;,&quot;text&quot;:&quot;Assine agora&quot;,&quot;action&quot;:null,&quot;class&quot;:null}" data-component-name="ButtonCreateButton"><a class="button primary" href="https://cartografiaintensidade.substack.com/subscribe?"><span>Assine agora</span></a></p><div><hr></div><p><em><span data-color="#50584b" style="color: rgb(80, 88, 75);">Este &#233; um dos territ&#243;rios de Andrea Salgueirinho. </span><a href="https://coragemlab.github.io/ecosystem/"><span data-color="#50584b" style="color: rgb(80, 88, 75);">Conhe&#231;a o ecossistema completo.</span></a></em></p>]]></content:encoded></item><item><title><![CDATA[005° Ocupar o espaço]]></title><description><![CDATA[Sobre invisibilidade, julgamento e o pre&#231;o de provar]]></description><link>https://cartografiaintensidade.substack.com/p/005ocupar-o-espaco</link><guid isPermaLink="false">https://cartografiaintensidade.substack.com/p/005ocupar-o-espaco</guid><dc:creator><![CDATA[Andrea Salgueirinho]]></dc:creator><pubDate>Thu, 02 Jul 2026 11:02:58 GMT</pubDate><enclosure url="https://substack-post-media.s3.amazonaws.com/public/images/0389d641-4a20-4d04-9cda-dfd7754fbddc_1024x1174.png" length="0" type="image/jpeg"/><content:encoded><![CDATA[<h3><span data-color="#50584b" style="color: rgb(80, 88, 75);">Mapeamento Anterior</span></h3><div class="digest-post-embed" data-attrs="{&quot;nodeId&quot;:&quot;c1d1ce88-3445-4929-9e89-da2b8aed196a&quot;,&quot;caption&quot;:&quot;Mapeamento Anterior&quot;,&quot;cta&quot;:null,&quot;showBylines&quot;:true,&quot;showDescription&quot;:true,&quot;showImage&quot;:true,&quot;size&quot;:&quot;sm&quot;,&quot;isEditorNode&quot;:true,&quot;title&quot;:&quot;004&#176; Nem toda intensidade se parece com a minha&quot;,&quot;publishedBylines&quot;:[{&quot;id&quot;:63995042,&quot;name&quot;:&quot;Andrea Salgueirinho&quot;,&quot;bio&quot;:&quot;Viagens, pesquisas e escrita sobre coragem. Sou uma escritora em expedi&#231;&#227;o pelo mundo e uma pesquisadora em campo. Registro hist&#243;rias, estudos e o que encontro quando a coragem precisa entrar em cena.&quot;,&quot;photo_url&quot;:&quot;https://substack-post-media.s3.amazonaws.com/public/images/70598ff0-57a9-4c23-bac6-bbef174b24a0_1179x1177.png&quot;,&quot;is_guest&quot;:false,&quot;bestseller_tier&quot;:null}],&quot;post_date&quot;:&quot;2026-06-25T15:03:05.089Z&quot;,&quot;cover_image&quot;:&quot;https://substack-post-media.s3.amazonaws.com/public/images/92c2cbc4-32a8-4b54-b603-ef60c7a88f03_6073x4049.jpeg&quot;,&quot;cover_image_alt&quot;:null,&quot;canonical_url&quot;:&quot;https://cartografiaintensidade.substack.com/p/004-nem-toda-intensidade-se-parece&quot;,&quot;section_name&quot;:null,&quot;video_upload_id&quot;:null,&quot;id&quot;:203423323,&quot;type&quot;:&quot;newsletter&quot;,&quot;reaction_count&quot;:1,&quot;comment_count&quot;:0,&quot;publication_id&quot;:9269418,&quot;publication_name&quot;:&quot;Cartografia da Intensidade&quot;,&quot;publication_logo_url&quot;:&quot;https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!qEE6!,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2Fdc2e16dd-cc9e-4231-953e-784de6a05a93_870x870.png&quot;,&quot;belowTheFold&quot;:false,&quot;youtube_url&quot;:null,&quot;show_links&quot;:null,&quot;feed_url&quot;:null}"></div><h5><span data-color="#50584b" style="color: rgb(80, 88, 75);">Sobre sensibilidade, sono e as formas que a intensidade assume</span></h5><div><hr></div><h3><strong>O computador</strong></h3><p>Anos noventa. Treinamento de sistema. O computador da colega de departamento deu pane.</p><p>A decis&#227;o da gerente foi imediata: que ela usasse o meu enquanto o dela consertava.</p><p>Eu era a primeira a sair da f&#225;brica para a sede da multinacional. Est&#225;vamos as duas no in&#237;cio do mesmo treinamento e nenhuma havia operado o sistema ainda. N&#227;o havia par&#226;metro nenhum. Nem meu, nem dela.</p><p>N&#227;o precisava de par&#226;metro. Ela era europeia. Por isso, mais capaz.</p><h3><span data-color="#50584b" style="color: rgb(80, 88, 75);">A vitrine</span></h3><p>Fui colocar uma embalagem na vitrine. A gerente de marketing, que estava ao telefone e sequer me olhou, disse categ&#243;rica, antes de eu tocar em nada: &#8220;N&#227;o mexa, voc&#234; n&#227;o vai saber como fazer.&#8221;</p><p>Perguntei: est&#225; em ordem decrescente por cor? Ela confirmou. Ent&#227;o eu sabia.</p><p>N&#227;o disse mais nada. Fiz.</p><h3><span data-color="#50584b" style="color: rgb(80, 88, 75);">O que a minha m&#227;e disse sem querer</span></h3><p>Naquela &#233;poca, as liga&#231;&#245;es passavam pela mesa da gerente antes de chegar at&#233; mim. Minha m&#227;e ligou. Falou mais do que devia, por inoc&#234;ncia, n&#227;o por maldade.</p><p>Depois disso, ouvi que filhos de pais alco&#243;latras t&#234;m o c&#233;rebro pouco desenvolvido.</p><p>Passei mais de vinte anos tentando provar que aquilo era mentira.</p><h3><span data-color="#50584b" style="color: rgb(80, 88, 75);">O que eu estava provando</span></h3><p>Eu sabia fazer. Isso nunca foi a quest&#227;o.</p><p>O que eu tentava provar &#233; que merecia estar ali. Que o espa&#231;o era meu por direito, n&#227;o por toler&#226;ncia.</p><p>A intensidade que me fazia mapear padr&#245;es antes de algu&#233;m terminar a frase, entregar al&#233;m do que era pedido, essa mesma intensidade foi o que usei para furar um teto que n&#227;o deveria existir.</p><p>Hoje eu sei que isso tem nome: excitabilidade intelectual.</p><p>O combust&#237;vel era real. O gasto tamb&#233;m.</p><h3><span data-color="#50584b" style="color: rgb(80, 88, 75);">O laudo e o corpo</span></h3><p>O diagn&#243;stico veio d&#233;cadas depois: TEA, TDAH, superdota&#231;&#227;o. Hoje carrego tamb&#233;m o diagn&#243;stico de fadiga cr&#244;nica debilitante.</p><p>Gastei anos provando o que a gerente j&#225; tinha decidido no dia do computador, na vitrine, antes de me ver trabalhar.</p><p>O laudo confirmou o que estava acontecendo desde sempre. A fadiga cobrou o pre&#231;o.</p><p style="text-align: right;"><em><strong><span data-color="#50584b" style="color: rgb(80, 88, 75);">Claudia Gon&#231;alves, Rio de Janeiro</span></strong></em></p><div><hr></div><h3><span data-color="#50584b" style="color: rgb(80, 88, 75);">Coordenada</span></h3><p>Zez&#233; Motta nasceu numa usina de a&#231;&#250;car no interior do Rio de Janeiro, filha de uma costureira e um m&#250;sico. Aos tr&#234;s anos foi para a capital, porque o pai queria alavancar a carreira. Cresceu numa cidade onde, d&#233;cadas depois, pesquisadores analisariam mais de trinta mil personagens dos filmes de maior bilheteria e encontrariam menos de vinte protagonistas n&#227;o brancos entre os cem maiores t&#237;tulos de um &#250;nico ano. Esse era o terreno. </p><p>Ela entrou em cena de qualquer forma. Estreou como atriz em 1967, como cantora em 1971. A ind&#250;stria j&#225; tinha um cat&#225;logo pronto de pap&#233;is para uma mulher negra: a m&#227;e preta, a m&#227;ezona, a melhor amiga da protagonista branca, a empregada, a mulata de exporta&#231;&#227;o. Zez&#233; passou por praticamente todos eles ao longo da carreira, &#224;s vezes dentro do mesmo filme, &#224;s vezes numa novela, sempre tendo que decidir quanto de si cabia dentro do molde que lhe entregavam.</p><p>Em 1976 interpretou Xica da Silva, personagem que carregava sozinha o peso de representar toda uma leitura racial do Brasil colonial. Em 1977, Tenda dos Milagres. Em 1982, Pixote, um dos filmes mais lembrados da hist&#243;ria do cinema nacional, onde viveu Maria Conga. No teatro, dividiu palco com textos de Chico Buarque e Vinicius de Moraes. Na m&#250;sica, lan&#231;ou discos, e sua interpreta&#231;&#227;o de "M&#227;e &#193;frica" ajudou a transformar a can&#231;&#227;o em um hino de resist&#234;ncia contra a exclus&#227;o racial.</p><p>O teto que Claudia furou numa f&#225;brica em poucos anos, Zez&#233; furou ao longo de uma carreira inteira, produ&#231;&#227;o ap&#243;s produ&#231;&#227;o. </p><div><hr></div><h3><span>Notas da Cartografia</span></h3><p>Excitabilidade intelectual &#233; um dos cinco tipos de sobreexcitabilidade descritos por <em>Kazimierz Dabrowski:</em> a tend&#234;ncia a mapear padr&#245;es, fazer conex&#245;es, aprender por observa&#231;&#227;o, saber antes de ser ensinada. Nas pr&#243;ximas edi&#231;&#245;es, vamos percorrer cada uma das cinco. Por enquanto: o que Claudia descreve como combust&#237;vel tem nome t&#233;cnico. E tem custo real quando o ambiente n&#227;o reconhece o que est&#225; diante dele.</p><p class="button-wrapper" data-attrs="{&quot;url&quot;:&quot;https://cartografiaintensidade.substack.com/subscribe?&quot;,&quot;text&quot;:&quot;Assine agora&quot;,&quot;action&quot;:null,&quot;class&quot;:null}" data-component-name="ButtonCreateButton"><a class="button primary" href="https://cartografiaintensidade.substack.com/subscribe?"><span>Assine agora</span></a></p><div><hr></div><p><em><span>Este &#233; um dos territ&#243;rios de Andrea Salgueirinho. </span><a href="https://coragemlab.github.io/ecosystem/">Conhe&#231;a o ecossistema completo.</a></em></p>]]></content:encoded></item><item><title><![CDATA[004° Nem toda intensidade se parece com a minha]]></title><description><![CDATA[Sobre sensibilidade, sono e as formas que a intensidade assume]]></description><link>https://cartografiaintensidade.substack.com/p/004-nem-toda-intensidade-se-parece</link><guid isPermaLink="false">https://cartografiaintensidade.substack.com/p/004-nem-toda-intensidade-se-parece</guid><dc:creator><![CDATA[Andrea Salgueirinho]]></dc:creator><pubDate>Thu, 25 Jun 2026 15:03:05 GMT</pubDate><enclosure url="https://substack-post-media.s3.amazonaws.com/public/images/92c2cbc4-32a8-4b54-b603-ef60c7a88f03_6073x4049.jpeg" length="0" type="image/jpeg"/><content:encoded><![CDATA[<h3><strong><span data-color="#50584b" style="color: rgb(80, 88, 75);">Mapeamento Anterior</span></strong></h3><div class="digest-post-embed" data-attrs="{&quot;nodeId&quot;:&quot;e98e6465-4b06-4ada-abd8-01482609ab7a&quot;,&quot;caption&quot;:&quot;Mapeamento Anterior&quot;,&quot;cta&quot;:null,&quot;showBylines&quot;:true,&quot;showDescription&quot;:true,&quot;showImage&quot;:true,&quot;size&quot;:&quot;sm&quot;,&quot;isEditorNode&quot;:true,&quot;title&quot;:&quot;003&#176; O que o corpo carrega&quot;,&quot;publishedBylines&quot;:[],&quot;post_date&quot;:&quot;2026-06-18T15:03:18.260Z&quot;,&quot;cover_image&quot;:&quot;https://substack-post-media.s3.amazonaws.com/public/images/ce605b89-143f-45f4-aa4b-e05063bb6c42_7525x4640.jpeg&quot;,&quot;cover_image_alt&quot;:null,&quot;canonical_url&quot;:&quot;https://cartografiaintensidade.substack.com/p/003-o-que-o-corpo-carrega&quot;,&quot;section_name&quot;:null,&quot;video_upload_id&quot;:null,&quot;id&quot;:200799054,&quot;type&quot;:&quot;newsletter&quot;,&quot;reaction_count&quot;:1,&quot;comment_count&quot;:0,&quot;publication_id&quot;:9269418,&quot;publication_name&quot;:&quot;Cartografia da Intensidade&quot;,&quot;publication_logo_url&quot;:&quot;https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!qEE6!,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2Fdc2e16dd-cc9e-4231-953e-784de6a05a93_870x870.png&quot;,&quot;belowTheFold&quot;:false,&quot;youtube_url&quot;:null,&quot;show_links&quot;:null,&quot;feed_url&quot;:null}"></div><h5>Sobre cansa&#231;o, hiperfoco e o que muda quando o funcionamento tem nome</h5><div><hr></div><h3><strong><span data-color="#5c6657" style="color: rgb(92, 102, 87);">Narizinho</span></strong></h3><p>N&#227;o tenho problema com barulho. Festas, obras, gente falando ao mesmo tempo, processo bem. Textura de tecido nunca foi quest&#227;o.</p><p>Certa vez, em 2023, na casa de uma amiga em Dubai, usei o lavabo e sa&#237; elogiando o cheirinho de canela. Ela disse que n&#227;o tinha nenhum difusor no banheiro. Insisti que sim, senti claramente. Quando cheguei em casa, ela me mandou uma foto: uma lata de sabonete fechada que estava no arm&#225;rio do banheiro. Quando abriu, era de canela. A partir daquele dia, me chamou de Narizinho.</p><p>Na Irlanda, em janeiro de 2024, experimentando cervejas artesanais com duas amigas, reconheci numa delas notas de flor. Elas disseram que n&#227;o. Perguntamos para a atendente, que foi confirmar com a cozinha. Tinha notas de uma flor espec&#237;fica na cerveja.</p><p>Cresci ouvindo do meu tio que eu tinha um ouvido muito bom para m&#250;sica.</p><p>No trabalho, em 2005, dividia cremes importados com amigas. Era funcion&#225;ria p&#250;blica ainda. Minha sensibilidade n&#227;o deixava usar. Para elas, o cheiro era &#243;timo. A &#250;nica exig&#234;ncia: que n&#227;o usassem no escrit&#243;rio.</p><p>Me chamaram de Narizinho. O seu apelido pode ser outro.</p><h3><span data-color="#50584b" style="color: rgb(80, 88, 75);">O curso era &#224; tarde</span></h3><p>Sonambulismo n&#227;o &#233; assunto que aparece muito nas conversas sobre AHSD.</p><p>Tinha uns quinze anos quando minha m&#227;e precisou me buscar quase na rua de madrugada porque eu acordei, me arrumei e estava saindo para o curso que fazia no per&#237;odo da tarde.</p><p>No in&#237;cio de junho deste ano, acordei &#224;s 4 da manh&#227;. Em 20 minutos tinha escrito a correla&#231;&#227;o entre a hist&#243;ria de Agneta, personagem de um filme sueco<em>,</em> e a minha. Voltei a dormir e esqueci do que aconteceu. S&#243; lembrei no dia seguinte, no trem, com <em>flashes</em> da madrugada. O texto estava l&#225;.</p><p>Em algum momento entre dormir e acordar, o processamento continuou.</p><h3><span data-color="#50584b" style="color: rgb(80, 88, 75);">O que o perfeccionismo faz em cada uma</span></h3><p>N&#227;o sabia que era perfeccionista at&#233; minha terapeuta identificar numa sess&#227;o, em 2024. Sa&#237; indignada, fui direto para a amiga com quem eu estava hospedada no Brasil: acredita que minha terapeuta disse que sou perfeccionista? Ela respondeu sem pausar: u&#233;, mas voc&#234; &#233;.</p><p>Fiquei com raiva de todo mundo. Semanas sem tocar no assunto.</p><p>Quando voltei, fui pela etimologia. Busquei o significado, estudei a palavra, entendi o que ela de fato significava. A&#237; aceitei. Voltei para a terapia e retomei o assunto.</p><p>Sou perfeccionista. Sempre entreguei trabalhos al&#233;m do que era pedido, terminei provas, cumpri prazos. Conhe&#231;o pessoas com o mesmo perfil que n&#227;o conseguiam terminar uma prova. O excesso de exig&#234;ncia interna chegava antes do tempo.</p><h3><strong><span data-color="#50584b" style="color: rgb(80, 88, 75);">Meu limite de dor</span></strong></h3><p>Em 1994, estava gr&#225;vida e precisei de um procedimento odontol&#243;gico. Avisei a dentista que anestesia n&#227;o pegava em mim. Ela tentou uma ampola. Depois outra. O procedimento foi desmarcado.</p><p>N&#227;o foi a &#250;nica vez. Em 2022, foram seis ampolas at&#233; a dentista dizer que aquele era o limite que podia aplicar. Fizemos o que foi poss&#237;vel.</p><p>O meu ginecologista, que me acompanhou por anos e viu de perto as crises de fibromialgia, disse uma vez que aquele n&#237;vel de dor era para eu estar me contorcendo. Que muitas mulheres com muito menos j&#225; n&#227;o estavam aguentando.</p><h3><span data-color="#50584b" style="color: rgb(80, 88, 75);">Dificuldade na escola</span></h3><p>N&#227;o tive dificuldades acad&#234;micas.</p><p>Certa vez, logo depois do meu laudo, em fevereiro deste ano, uma pessoa me contou que passou anos achando que era burra. Na prova, ela sabia a mat&#233;ria. A resposta nunca estava boa o suficiente para ela mesma. A professora &#224;s vezes fazia prova oral, porque ficava evidente que o conte&#250;do estava l&#225;. O que n&#227;o estava era a resposta pronta no tempo que a folha exigia.</p><p>Quando ela terminou de contar, eu disse que aquele tempo a mais que ela precisava antes de responder era tamb&#233;m caracter&#237;stica do perfil AHSD. O rosto dela mudou. D&#233;cadas achando que era burra, e era o perfil funcionando.<br><br>&#192;s vezes isso tem nome: dupla excepcionalidade.</p><h3><span data-color="#50584b" style="color: rgb(80, 88, 75);">Coordenada</span></h3><p>M. tirava notas baixas. Era vista como lenta. Ningu&#233;m perguntou o que acontecia dentro da cabe&#231;a dela enquanto tentava responder uma prova.</p><p>Hoje tem tr&#234;s filhos. Um com laudo. Os outros dois, intensos. Ela conhece bem.</p><p>Tem sobrecarga. A sensa&#231;&#227;o de estar sempre no limite. De funcionar bem em alguns momentos e travar completamente em outros. Um sistema nervoso que processou a vida inteira sem mapa, enquanto sustentava outros tr&#234;s que precisavam do dela.</p><p>A pesquisa documenta preval&#234;ncia significativamente maior de AHSD n&#227;o identificada em m&#227;es de filhos neurodivergentes.</p><p>Muitas mulheres chegam aqui pelo colapso. Antes disso, nunca ningu&#233;m sugeriu outra leitura.</p><h3><span data-color="#50584b" style="color: rgb(80, 88, 75);">Notas da Cartografia</span></h3><p><strong>Dupla excepcionalidade</strong> &#233; quando altas habilidades coexistem com outra condi&#231;&#227;o: dificuldade de aprendizagem, TDAH, autismo, ansiedade. O perfil AHSD fica mascarado pela dificuldade, e a dificuldade fica mascarada pela capacidade. As duas passam invis&#237;veis.</p><p><strong>Hipersensibilidade sensorial</strong> &#233; a intensidade aumentada na percep&#231;&#227;o de est&#237;mulos: cheiro, som, textura, luz, sabor. Faz parte do processamento mais amplo caracter&#237;stico do perfil AHSD, mas varia por pessoa e por modalidade sensorial.</p><p></p><p class="button-wrapper" data-attrs="{&quot;url&quot;:&quot;https://cartografiaintensidade.substack.com/subscribe?&quot;,&quot;text&quot;:&quot;Assine agora&quot;,&quot;action&quot;:null,&quot;class&quot;:null}" data-component-name="ButtonCreateButton"><a class="button primary" href="https://cartografiaintensidade.substack.com/subscribe?"><span>Assine agora</span></a></p><div><hr></div><p><em><span>Este &#233; um dos territ&#243;rios de Andrea Salgueirinho. </span><a href="https://coragemlab.github.io/ecosystem/">Conhe&#231;a o ecossistema completo.</a></em></p>]]></content:encoded></item><item><title><![CDATA[003° O que o corpo carrega]]></title><description><![CDATA[Sobre cansa&#231;o, hiperfoco e o que muda quando o funcionamento tem nome]]></description><link>https://cartografiaintensidade.substack.com/p/003-o-que-o-corpo-carrega</link><guid isPermaLink="false">https://cartografiaintensidade.substack.com/p/003-o-que-o-corpo-carrega</guid><pubDate>Thu, 18 Jun 2026 15:03:18 GMT</pubDate><enclosure url="https://substack-post-media.s3.amazonaws.com/public/images/ce605b89-143f-45f4-aa4b-e05063bb6c42_7525x4640.jpeg" length="0" type="image/jpeg"/><content:encoded><![CDATA[<h3>Mapeamento Anterior </h3><div class="digest-post-embed" data-attrs="{&quot;nodeId&quot;:&quot;7593f9d9-a903-4a15-9dc2-74425b2a3730&quot;,&quot;caption&quot;:&quot;Mapeamento anterior&quot;,&quot;cta&quot;:null,&quot;showBylines&quot;:true,&quot;showDescription&quot;:true,&quot;showImage&quot;:true,&quot;size&quot;:&quot;sm&quot;,&quot;isEditorNode&quot;:true,&quot;title&quot;:&quot;002&#176; O que o sil&#234;ncio aprende a fazer&quot;,&quot;publishedBylines&quot;:[{&quot;id&quot;:63995042,&quot;name&quot;:&quot;Andrea Salgueirinho&quot;,&quot;bio&quot;:&quot;Viagens, pesquisas e escrita sobre coragem. Sou uma escritora em expedi&#231;&#227;o pelo mundo e uma pesquisadora em campo. Registro hist&#243;rias, estudos e o que encontro quando a coragem precisa entrar em cena.&quot;,&quot;photo_url&quot;:&quot;https://substack-post-media.s3.amazonaws.com/public/images/70598ff0-57a9-4c23-bac6-bbef174b24a0_1179x1177.png&quot;,&quot;is_guest&quot;:false,&quot;bestseller_tier&quot;:null}],&quot;post_date&quot;:&quot;2026-06-12T21:58:43.138Z&quot;,&quot;cover_image&quot;:&quot;https://substack-post-media.s3.amazonaws.com/public/images/b6514667-2eb4-4079-b1ea-30621c3d08ae_5760x3840.jpeg&quot;,&quot;cover_image_alt&quot;:null,&quot;canonical_url&quot;:&quot;https://cartografiaintensidade.substack.com/p/002-o-que-o-silencio-aprende-a-fazer&quot;,&quot;section_name&quot;:null,&quot;video_upload_id&quot;:null,&quot;id&quot;:201742953,&quot;type&quot;:&quot;newsletter&quot;,&quot;reaction_count&quot;:0,&quot;comment_count&quot;:0,&quot;publication_id&quot;:9269418,&quot;publication_name&quot;:&quot;Cartografia da Intensidade&quot;,&quot;publication_logo_url&quot;:&quot;https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!qEE6!,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2Fdc2e16dd-cc9e-4231-953e-784de6a05a93_870x870.png&quot;,&quot;belowTheFold&quot;:false,&quot;youtube_url&quot;:null,&quot;show_links&quot;:null,&quot;feed_url&quot;:null}"></div><h5>Sobre masking, heran&#231;a e o que passa de gera&#231;&#227;o em gera&#231;&#227;o sem nome</h5><div><hr></div><p>Sa&#237; de uma reuni&#227;o de duas horas e precisei descansar. Esgotamento de quem ficou parada em &#225;gua rasa por horas.</p><p>A reuni&#227;o tinha sido funcional, educada, produtiva nos termos que qualquer avalia&#231;&#227;o externa usaria. E eu sa&#237; de l&#225; com a sensa&#231;&#227;o de quem passou o dia inteiro nadando num lugar raso, sem conseguir mergulhar.</p><p>Achava que era exigente demais. Que tinha um problema com expectativas. Que precisava aprender a me satisfazer com o ordin&#225;rio como as outras pessoas pareciam conseguir.</p><p>O que eu n&#227;o sabia era que meu sistema nervoso estava rodando em modo de subestimula&#231;&#227;o cr&#244;nica. Uma mente que processa em m&#250;ltiplas camadas, quando confinada em ambientes que operam numa s&#243;, n&#227;o descansa: compensa. Cria camadas internas onde o ambiente n&#227;o oferece. Preenche os espa&#231;os com conex&#245;es associativas, com pensamentos paralelos, com an&#225;lises de segundo e terceiro n&#237;vel do que est&#225; acontecendo &#224; sua frente.</p><p>Esse trabalho interno &#233; invis&#237;vel para quem est&#225; de fora. E &#233; exaustivo.</p><p>O paradoxo da mente AHSD &#233; que ela se cansa mais quando tem pouco para processar do que quando tem muito. A sobrecarga de est&#237;mulos tem custo: o ambiente muito ruidoso, o excesso de demandas simult&#226;neas, a press&#227;o por respostas r&#225;pidas onde o pensamento precisaria de tempo. A subestimula&#231;&#227;o tem peso equivalente, s&#243; que mais invis&#237;vel. O t&#233;dio aqui tem forma: &#233; o sistema nervoso trabalhando horas extras para criar o que o ambiente n&#227;o ofereceu.</p><p>Passei a reconhecer o que ativa e o que drena de um jeito mais preciso. Uma conversa que vai fundo cansa de um jeito diferente de uma conversa que ficou na superf&#237;cie.</p><h3>O hiperfoco </h3><p>Existe um estado de processamento que pessoas AHSD conhecem bem e raramente conseguem explicar para quem n&#227;o o viveu: o hiperfoco.</p><p>Hiperfoco &#233; quando algo captura o sistema nervoso de uma forma que torna todo o restante irrelevante. A fome some. O tempo perde granularidade.</p><p>Entrei em hiperfoco pela primeira vez que consegui identificar com uns dez anos, lendo a biografia da Elis Regina. Tinha um trecho sobre a Maria Rita, n&#227;o lembro as palavras, lembro a sensa&#231;&#227;o. O livro estava acontecendo de um jeito que tudo ao redor deixou de existir. Minha m&#227;e me chamou. Eu ouvi da terceira vez.</p><p>Na adolesc&#234;ncia, pegava um facho de luz do corredor para continuar lendo depois que ela apagava a luz do quarto. Terminava livros em dois dias. Se me prendesse muito, ficava a noite inteira.</p><p>O hiperfoco tem agenda pr&#243;pria. Aparece quando quer, e o resto passa a ser secund&#225;rio.</p><p>Por d&#233;cadas, interpretei isso como falta de disciplina. Ou pior: como evid&#234;ncia de que eu n&#227;o era confi&#225;vel. Se eu conseguia hiperfoco para certas coisas e n&#227;o para outras, a conclus&#227;o &#243;bvia era que eu simplesmente n&#227;o queria fazer as outras com suficiente seriedade.</p><p>O laudo explicou: &#233; neurologia.</p><p>O hiperfoco est&#225; associado ao sistema dopamin&#233;rgico. A mente AHSD tem um limiar diferente de ativa&#231;&#227;o para esse sistema: precisa de estimula&#231;&#227;o que seja intensa o suficiente, nova o suficiente, alinhada com o que o sistema nervoso considera central. O que ativa esse limiar chega sem escolha consciente.</p><p>Criar condi&#231;&#245;es para o hiperfoco aparecer &#233; mais eficiente do que tentar for&#231;ar concentra&#231;&#227;o onde o sistema nervoso n&#227;o est&#225; sendo ativado.</p><h3>O que muda, o que n&#227;o muda</h3><p>H&#225; uma pergunta que aparece quando o laudo chega: agora que eu sei, o que fa&#231;o com isso?</p><p>A autoidentifica&#231;&#227;o veio antes. Quando escrevi o texto que est&#225; na primeira edi&#231;&#227;o desta cartografia, ainda achava que podia estar errada. Mas j&#225; estava acolhendo coisas que antes tentava esconder ou normalizar. Minha psic&#243;loga percebeu a mudan&#231;a antes de eu perceber o que estava acontecendo.</p><p>A forma como o c&#233;rebro conecta informa&#231;&#245;es, a intensidade das respostas emocionais, a tend&#234;ncia a aprofundar qualquer assunto at&#233; as camadas menos &#243;bvias. Tudo isso continua. Era assim antes do laudo. Vai continuar sendo assim depois.</p><p>Antes eu achava que cansava porque era fraca. Agora sei que carregar esse n&#237;vel de processamento tem peso real, e que eu precisava de descanso.</p><p>A autocr&#237;tica continua. O reflexo de calibrar tamb&#233;m. Mas as velhas hist&#243;rias ficam mais dif&#237;ceis de sustentar como se fossem fatos.</p><h3>Coordenada</h3><p>Bruna Mathias &#233; psic&#243;loga cl&#237;nica, mulher preta, criada na periferia, especializada em neurodiverg&#234;ncias. Trabalha principalmente com crian&#231;as, adolescentes e os adultos que est&#227;o ao redor deles tentando entender o que est&#225; acontecendo.</p><p>Ela tem AHSD. Cresceu em escola p&#250;blica, sem recursos, sem que ningu&#233;m encontrasse explica&#231;&#245;es para o que via nela. O hiperfoco foi para a psicologia. Para o estudo de quem ela mesma foi.</p><h3>Notas da Cartografia</h3><p>Subestimula&#231;&#227;o &#233; quando o sistema nervoso AHSD tem menos est&#237;mulo do que precisa para funcionar bem. A resposta &#233; compensa&#231;&#227;o interna: a mente cria camadas onde o ambiente n&#227;o oferece. O resultado &#233; fadiga sem justificativa aparente, sair de um dia f&#225;cil mais cansada do que de um dia intenso.</p><p>Hiperfoco &#233; um estado de processamento profundo em que o restante do ambiente se torna irrelevante. Associado ao sistema dopamin&#233;rgico, aparece quando o sistema nervoso encontra estimula&#231;&#227;o suficientemente intensa, nova ou alinhada com seus interesses centrais. &#201; neurologia. O limiar de ativa&#231;&#227;o varia por pessoa.</p><div><hr></div><p class="button-wrapper" data-attrs="{&quot;url&quot;:&quot;https://cartografiaintensidade.substack.com/subscribe?&quot;,&quot;text&quot;:&quot;Assine agora&quot;,&quot;action&quot;:null,&quot;class&quot;:null}" data-component-name="ButtonCreateButton"><a class="button primary" href="https://cartografiaintensidade.substack.com/subscribe?"><span>Assine agora</span></a></p><h6></h6><p><em>Este &#233; um dos territ&#243;rios de Andrea Salgueirinho. <a href="https://coragemlab.github.io/ecosystem/">Conhe&#231;a o ecossistema completo.</a></em></p><p></p>]]></content:encoded></item><item><title><![CDATA[002° O que o silêncio aprende a fazer]]></title><description><![CDATA[Sobre masking, heran&#231;a e o que passa de gera&#231;&#227;o em gera&#231;&#227;o sem nome]]></description><link>https://cartografiaintensidade.substack.com/p/002-o-que-o-silencio-aprende-a-fazer</link><guid isPermaLink="false">https://cartografiaintensidade.substack.com/p/002-o-que-o-silencio-aprende-a-fazer</guid><dc:creator><![CDATA[Andrea Salgueirinho]]></dc:creator><pubDate>Fri, 12 Jun 2026 21:58:43 GMT</pubDate><enclosure url="https://substack-post-media.s3.amazonaws.com/public/images/b6514667-2eb4-4079-b1ea-30621c3d08ae_5760x3840.jpeg" length="0" type="image/jpeg"/><content:encoded><![CDATA[<h3>Mapeamento anterior</h3><div class="digest-post-embed" data-attrs="{&quot;nodeId&quot;:&quot;6fbc6311-2a81-4c81-8dde-582ee208242d&quot;,&quot;caption&quot;:&quot;Crescer nos anos setenta e oitenta significava uma coisa muito clara: menina que sabe demais aprende a n&#227;o mostrar.&quot;,&quot;cta&quot;:null,&quot;showBylines&quot;:true,&quot;showDescription&quot;:true,&quot;showImage&quot;:true,&quot;size&quot;:&quot;sm&quot;,&quot;isEditorNode&quot;:true,&quot;title&quot;:&quot;001&#176; Antes do nome&quot;,&quot;publishedBylines&quot;:[{&quot;id&quot;:63995042,&quot;name&quot;:&quot;Andrea Salgueirinho&quot;,&quot;bio&quot;:&quot;Viagens, pesquisas e escrita sobre coragem. Sou uma escritora em expedi&#231;&#227;o pelo mundo e uma pesquisadora em campo. Registro hist&#243;rias, estudos e o que encontro quando a coragem precisa entrar em cena.&quot;,&quot;photo_url&quot;:&quot;https://substack-post-media.s3.amazonaws.com/public/images/70598ff0-57a9-4c23-bac6-bbef174b24a0_1179x1177.png&quot;,&quot;is_guest&quot;:false,&quot;bestseller_tier&quot;:null}],&quot;post_date&quot;:&quot;2026-06-05T21:59:14.010Z&quot;,&quot;cover_image&quot;:&quot;https://substack-post-media.s3.amazonaws.com/public/images/43b946a9-ee62-4145-b212-32959a0ec30e_5327x7990.jpeg&quot;,&quot;cover_image_alt&quot;:null,&quot;canonical_url&quot;:&quot;https://cartografiaintensidade.substack.com/p/001-antes-do-nome&quot;,&quot;section_name&quot;:null,&quot;video_upload_id&quot;:null,&quot;id&quot;:200447073,&quot;type&quot;:&quot;newsletter&quot;,&quot;reaction_count&quot;:3,&quot;comment_count&quot;:0,&quot;publication_id&quot;:9269418,&quot;publication_name&quot;:&quot;Cartografia da Intensidade&quot;,&quot;publication_logo_url&quot;:&quot;https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!qEE6!,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2Fdc2e16dd-cc9e-4231-953e-784de6a05a93_870x870.png&quot;,&quot;belowTheFold&quot;:false,&quot;youtube_url&quot;:null,&quot;show_links&quot;:null,&quot;feed_url&quot;:null}"></div><h5>Sobre intensidade, sil&#234;ncio e as hist&#243;rias que contamos sobre n&#243;s mesmas</h5><div><hr></div><p>O sil&#234;ncio chegou por acumula&#231;&#227;o.</p><p>A mente que processa em m&#250;ltiplas camadas foi juntando dados: a pergunta que cansou o professor, o entusiasmo lido como exibicionismo, a intensidade tratada como excesso. E construindo uma hip&#243;tese sobre si mesma: tem algo aqui que &#233; demais para o espa&#231;o dispon&#237;vel. Aprenda a calibrar.</p><p>E aprendeu.</p><p>A calibra&#231;&#227;o foi t&#227;o eficiente que se tornou autom&#225;tica. A avalia&#231;&#227;o pr&#233;via rodava em segundo plano, antes mesmo da consci&#234;ncia chegar &#224; pergunta. O sil&#234;ncio estrat&#233;gico virou sil&#234;ncio estrutural.</p><p>Isso tem um nome t&#233;cnico: <em>masking</em>. O processo de esconder ou modular caracter&#237;sticas do pr&#243;prio funcionamento para se encaixar no que o ambiente espera. Aparece em perfis AHSD com uma frequ&#234;ncia que a pesquisa est&#225; come&#231;ando a mapear.</p><p>O custo &#233; que a adapta&#231;&#227;o ficou. </p><p>Eu carrego esse reflexo at&#233; hoje. &#192;s vezes percebo: estou avaliando se posso dizer isso, se vou parecer isso ou aquilo, se o espa&#231;o suporta o que quero trazer. Antes achava que era timidez, que era inseguran&#231;a que eu precisava superar com for&#231;a de vontade.</p><p>O meu laudo tamb&#233;m trouxe TAG por sobrecarga adaptativa. Faz sentido. D&#233;cadas de avalia&#231;&#227;o pr&#233;via autom&#225;tica t&#234;m custo fisiol&#243;gico.</p><p>A primeira vez que fui &#224; terapeuta, levei uma crise. Tinha ganhado um concurso de par&#243;dias, e quem me apresentou ao j&#250;ri, sem saber que era eu, disse: essa pessoa &#233; expansiva, sorridente, inteligente, criativa. Eu n&#227;o me reconheci. Me achava fechada, t&#237;mida, insegura. E ali estava uma autoridade confirmando uma vers&#227;o de mim que eu n&#227;o sabia que existia.</p><p>Na sess&#227;o, tentei explicar o que estava acontecendo. Em cada lugar que eu frequentava, eu me ajustava. Na igreja, coque e saia comprida. Em ambientes formais, um qu&#234; de intelectualidade. Com a fam&#237;lia, m&#250;sica e brincadeira. Eu nunca sabia qual era a vers&#227;o de verdade.</p><div><hr></div><h3><strong>A heran&#231;a sem nome</strong></h3><p>O que o laudo leu estava l&#225; desde a inf&#226;ncia, atravessando gera&#231;&#245;es sem nome.</p><p>Na minha fam&#237;lia, crian&#231;as andavam com 9 meses, liam cedo, aprendiam sozinhas. Minha m&#227;e tem 72 anos. Sempre quis que eu aprendesse piano, chegou a comprar um piano quando eu era crian&#231;a, mas o dinheiro acabou antes de terminar o curso. Depois, j&#225; adulta, foi ela mesma que come&#231;ou a aprender: comprou um teclado, fez aulas online, e hoje ensina crian&#231;as a tocar. Meu av&#244; era reconhecidamente inteligente e igualmente dif&#237;cil de encaixar. Rei das palavras cruzadas: cobra, super, qualquer n&#237;vel. Minha m&#227;e aprendeu com ele. Eu aprendi com minha m&#227;e. Compr&#225;vamos nas bancas de jornal, era nosso lazer antes da internet existir. </p><p>Nenhum deles teve laudo. Nenhum deles teve nome.</p><p>AHSD tem tend&#234;ncia heredit&#225;ria. Quando aparece numa gera&#231;&#227;o, &#233; comum encontrar rastros nas anteriores e nas seguintes.</p><p>Eu penso na minha m&#227;e encontrando as teclas por conta pr&#243;pria, aos 72 anos, ensinando crian&#231;as que provavelmente nem imaginam que a professora come&#231;ou tarde. Na narrativa que ela usava para si mesma, n&#227;o era talento. Era persist&#234;ncia.</p><p>Aprendi a li&#231;&#227;o sem que ningu&#233;m precisasse ensin&#225;-la diretamente. Aprendi observando.</p><p>O laudo rompeu essa heran&#231;a. O que estava sendo passado de gera&#231;&#227;o em gera&#231;&#227;o finalmente tinha um lugar.</p><div><hr></div><h3><strong>Coordenada</strong></h3><p>Morena Mariah cresceu acreditando que n&#227;o era inteligente. Na escola, colegas se recusavam a fazer trabalhos em grupo com ela. Uma professora, ao ler um texto de qualidade que ela havia escrito, a acusou de pl&#225;gio. Exigiu que reescrevesse sob supervis&#227;o direta para provar a autoria.</p><p>A professora n&#227;o acreditava que uma menina negra pudesse ter escrito aquilo.</p><p>Morena tinha. E continuou tendo.</p><p>Aos 30 anos, o diagn&#243;stico de altas habilidades chegou. Pesquisadora, escritora, dois TEDx. Criadora do Afrofuturo, plataforma de educa&#231;&#227;o que ela chama de &#8220;catadora de saberes ancestrais&#8221;, em refer&#234;ncia direta a Carolina Maria de Jesus.</p><p>O funcionamento estava l&#225; desde sempre.</p><div><hr></div><h3><strong>Notas da Cartografia</strong></h3><p><em>Masking </em>&#233; o processo de modular ou esconder caracter&#237;sticas do pr&#243;prio funcionamento para corresponder ao que o ambiente espera. Em perfis AHSD, costuma come&#231;ar na inf&#226;ncia como adapta&#231;&#227;o e se tornar autom&#225;tico com o tempo. O custo acumulado aparece como exaust&#227;o cr&#244;nica, dificuldade de identificar prefer&#234;ncias pr&#243;prias e sensa&#231;&#227;o persistente de estar performando uma vers&#227;o de si mesma.</p><div><hr></div><p>Na semana que vem: o corpo e o que ele registrou enquanto isso tudo acontecia.</p><div><hr></div><p class="button-wrapper" data-attrs="{&quot;url&quot;:&quot;https://cartografiaintensidade.substack.com/subscribe?&quot;,&quot;text&quot;:&quot;Assine agora&quot;,&quot;action&quot;:null,&quot;class&quot;:null}" data-component-name="ButtonCreateButton"><a class="button primary" href="https://cartografiaintensidade.substack.com/subscribe?"><span>Assine agora</span></a></p><p></p><p><em>Este &#233; um dos territ&#243;rios de Andrea Salgueirinho. <a href="https://coragemlab.github.io/ecosystem/">Conhe&#231;a o ecossistema completo.</a></em></p>]]></content:encoded></item><item><title><![CDATA[001° Antes do nome]]></title><description><![CDATA[Sobre intensidade, sil&#234;ncio e as hist&#243;rias que contamos sobre n&#243;s mesmas]]></description><link>https://cartografiaintensidade.substack.com/p/001-antes-do-nome</link><guid isPermaLink="false">https://cartografiaintensidade.substack.com/p/001-antes-do-nome</guid><dc:creator><![CDATA[Andrea Salgueirinho]]></dc:creator><pubDate>Fri, 05 Jun 2026 21:59:14 GMT</pubDate><enclosure url="https://substack-post-media.s3.amazonaws.com/public/images/43b946a9-ee62-4145-b212-32959a0ec30e_5327x7990.jpeg" length="0" type="image/jpeg"/><content:encoded><![CDATA[<p>Crescer nos anos setenta e oitenta significava uma coisa muito clara: menina que sabe demais aprende a n&#227;o mostrar.</p><p>Ningu&#233;m disse nada diretamente. Era clima. A pergunta que cansava o professor. O sil&#234;ncio estrat&#233;gico que voc&#234; aprendeu a cultivar porque percebeu, cedo, que ocupar muito espa&#231;o tinha custo.</p><p>Esse custo ficou no corpo. </p><p>O h&#225;bito era avaliar antes de falar, calcular antes de perguntar. Checar se o entusiasmo ia parecer exibicionismo.</p><p>D&#233;cadas depois, com toda a evid&#234;ncia contr&#225;ria acumulada, a leitura interna ainda hesita. N&#227;o quer ser vista assim.</p><p>Esse &#233; o ponto de partida desta cartografia.</p><div><hr></div><h3>Antes do nome</h3><p>Isso foi escrito antes do laudo. Quando ainda era hip&#243;tese, quando a possibilidade de estar errada era alta o suficiente para que eu anotasse isso no caderno como ressalva.</p><p><em>Eu nem tinha percebido que estava me acolhendo.</em></p><p><em>Sim, fez diferen&#231;a minha autoidentifica&#231;&#227;o. Justo eu, que passei uma boa parte da vida achando que n&#227;o era inteligente. Eu nunca &#8220;sabia o suficiente&#8221; e nunca estava preparada pra dizer n&#227;o sei &#8211; vai que as pessoas descobrem que n&#227;o sou inteligente.</em></p><p><em>Parecida com essa sensa&#231;&#227;o foi a impress&#227;o de que as pessoas que sabiam que eu funcionava diferente estavam me traindo, porque nunca me disseram. Fui, mundo afora, passando por exibida &#8211; e na vida era s&#243; um jeitinho diferente de funcionar.</em></p><p><em>Minha cabe&#231;a que n&#227;o para nunca, fazendo in&#250;meras conex&#245;es ao mesmo tempo, a mem&#243;ria de inf&#226;ncia t&#227;o n&#237;tida, os sonhos l&#250;cidos. Minha mente dificilmente desliga, mas agora j&#225; sei.</em></p><p><em>Um dia falei pra minha amiga que usava o ChatGPT para fazer quiz de pa&#237;ses, assuntos das civiliza&#231;&#245;es antigas, e ela me chamou de doida. Sou doida n&#227;o &#8211; meu c&#233;rebro s&#243; funciona diferente.</em></p><p><em>Hoje estou percebendo que preciso alinhar minhas intensidades. Eu sou tudo muito. E talvez n&#227;o precise ser assim, at&#233; porque os outros n&#227;o d&#227;o conta dessa intensidade, assim, me protejo, enquanto protejo o outro tamb&#233;m.</em></p><p><em>E parafraseando Denise Fraga: n&#227;o vai dar tempo de fazer tudo o que quero fazer. E &#233; muita coisa. Mas &#233; bom alinhar essas expectativas pra n&#227;o me frustrar.</em></p><p><em>Muita coisa tem feito sentido. Estou muito mais calma agora e com a sensa&#231;&#227;o de que tenho respaldo, mas, ao mesmo tempo, sabendo que a possibilidade de n&#227;o ser AHSD &#233; alta, porque n&#227;o me vejo com QI alto, n&#227;o tenho uma linguagem acad&#234;mica, ali&#225;s tenho at&#233; dificuldade com isso, e estou longe de ser nerd. Talvez eu seja s&#243; uma anarquista rebelde. E t&#225; tudo bem.</em></p><p>Essa &#250;ltima frase me interessa: talvez eu seja s&#243; uma anarquista rebelde.</p><p>Era uma sa&#237;da de emerg&#234;ncia. Uma forma de sustentar a possibilidade de n&#227;o caber na categoria, de ser outra coisa qualquer, algo que n&#227;o dependesse de confirma&#231;&#227;o externa para ser v&#225;lido. A anarquista rebelde n&#227;o precisava de laudo. Ela era o que era por conta pr&#243;pria.</p><p>O que eu n&#227;o sabia, escrevendo aquilo, era que o laudo ia confirmar exatamente o que a anarquista rebelde j&#225; sabia de si mesma. S&#243; ia dar nome ao territ&#243;rio que ela habitava sem mapa.</p><div><hr></div><h3>O laudo que l&#234;</h3><p>O laudo que recebi aos 53 anos n&#227;o criou nada que n&#227;o estivesse l&#225;. Me leu.</p><p>Quando a neuropsic&#243;loga me entregou o relat&#243;rio, eu estava preparada para qualquer coisa, menos para o al&#237;vio. Preparada para resistir, para questionar, para pedir mais dados. N&#227;o estava preparada para reconhecer, p&#225;gina ap&#243;s p&#225;gina, uma descri&#231;&#227;o t&#227;o precisa de como minha cabe&#231;a funciona.</p><p>Precocidade cognitiva desde a inf&#226;ncia. Intensidade de interesses. Elevada curiosidade intelectual. Mem&#243;ria de longo prazo preservada. Processamento que opera em m&#250;ltiplas camadas simultaneamente.</p><p>Eu li e pensei: sempre foi isso.</p><p>Passei boa parte da vida achando que n&#227;o era inteligente o suficiente. Que minha cabe&#231;a que n&#227;o parava era agita&#231;&#227;o. Que minha dificuldade em terminar projetos era falta de disciplina.</p><div><hr></div><h3>O que o laudo n&#227;o faz</h3><p>Tem uma coisa que o laudo n&#227;o faz: convencer as pessoas ao redor.</p><p>Nem todas as pessoas do meu conv&#237;vio sabem. Foi uma escolha de economia de energia. Explicar pressup&#245;e que a outra pessoa tem algum referencial para o que voc&#234; est&#225; dizendo. Quase nunca tem.</p><p>Na semana passada contei para minha cunhada.</p><p>Ela me ouviu e disse, sem parar para pensar: sempre te achei fora da curva.</p><p>Eu n&#227;o sabia disso.</p><p>Eu n&#227;o sabia que algu&#233;m que convive comigo h&#225; anos tinha essa leitura. Ela estava l&#225;, dispon&#237;vel, e eu nunca soube porque nunca perguntei, porque a pergunta pressup&#245;e que voc&#234; acredita que pode ser vista dessa forma.</p><p>O laudo nomeia o funcionamento. As pessoas veem a express&#227;o dele. Chegar nos dois custou a mesma coisa: parar de argumentar contra mim mesma.</p><p>Fora da curva era a forma dela de dizer o que o laudo disse com outras palavras. A linguagem era diferente. O que ela percebeu era o mesmo. S&#243; que eu precisei de 53 anos, de uma hip&#243;tese terap&#234;utica, de uma avalia&#231;&#227;o neuropsicol&#243;gica, de um relat&#243;rio de dezenas de p&#225;ginas para parar de disputar internamente o que ela j&#225; sabia observando.</p><p>O sil&#234;ncio aprendido nos anos setenta tinha feito seu trabalho.</p><div><hr></div><h3><strong>Coordenada</strong></h3><p>Quando penso em intensidade, lembro de Carolina Maria de Jesus. Em 1955, ela acordava antes do amanhecer no Canind&#233;, bairro de barracos em S&#227;o Paulo. Catava papel, latinhas, qualquer coisa que o lixo devolvesse. Voltava, cuidava dos filhos, e ent&#227;o, nos fragmentos de tempo que sobravam, escrevia em peda&#231;os de papel encontrados no pr&#243;prio lixo que catava.</p><p>O Quarto de Despejo, publicado em 1960, vendeu mais de 100 mil exemplares no primeiro ano.</p><p>Carolina nunca ouviu a palavra AHSD. Mas a intensidade estava l&#225;: na velocidade com que processava o que via, na precis&#227;o com que descrevia, na recusa em deixar o mundo passar sem registro.</p><div><hr></div><h3><strong>Notas da Cartografia</strong></h3><p>AHSD &#8211; Altas Habilidades/Superdota&#231;&#227;o: descreve um modo de funcionamento em que o sistema nervoso processa com mais camadas e mais conex&#245;es simult&#226;neas. O termo abrange perfis diversos: pessoas com desempenho escolar comum, com dificuldades de aprendizagem, com hist&#243;rico de inadequa&#231;&#227;o. O que os une &#233; o modo de processar, o resultado vis&#237;vel varia.</p><div><hr></div><p>Na semana que vem: o que o sil&#234;ncio aprende a fazer quando ningu&#233;m est&#225; olhando.</p><div><hr></div><p class="button-wrapper" data-attrs="{&quot;url&quot;:&quot;https://cartografiaintensidade.substack.com/subscribe?&quot;,&quot;text&quot;:&quot;Assine agora&quot;,&quot;action&quot;:null,&quot;class&quot;:null}" data-component-name="ButtonCreateButton"><a class="button primary" href="https://cartografiaintensidade.substack.com/subscribe?"><span>Assine agora</span></a></p><p></p>]]></content:encoded></item><item><title><![CDATA[Cartografia da Intensidade]]></title><description><![CDATA[Edi&#231;&#227;o Zero]]></description><link>https://cartografiaintensidade.substack.com/p/cartografia-da-intensidade</link><guid isPermaLink="false">https://cartografiaintensidade.substack.com/p/cartografia-da-intensidade</guid><dc:creator><![CDATA[Andrea Salgueirinho]]></dc:creator><pubDate>Mon, 01 Jun 2026 19:35:17 GMT</pubDate><enclosure url="https://substack-post-media.s3.amazonaws.com/public/images/96ab8561-3be2-4718-a0cb-ef2cc43e5ae8_1348x703.png" length="0" type="image/jpeg"/><content:encoded><![CDATA[<h3>Voc&#234; tamb&#233;m era aquela crian&#231;a?</h3><p>A que terminava a li&#231;&#227;o antes de todo mundo. A que sentia em <em>alta voltagem</em> e n&#227;o sabia para onde mandar tudo isso.</p><p>Eu era essa menina.</p><p>E por muito tempo n&#227;o tive nome para isso. S&#243; sabia que o que havia dentro de mim n&#227;o cabia no espa&#231;o que me ofereciam.</p><p>Aos 53 anos, um laudo da neuropsic&#243;loga confirmou o que eu j&#225; suspeitava: meu c&#233;rebro funciona diferente. AHSD, Altas Habilidades e Superdota&#231;&#227;o. Mais Transtorno de Ansiedade Generalizada, consequ&#234;ncia de anos em sobrecarga adaptativa.</p><p>Foi al&#237;vio. E tamb&#233;m um tipo de luto. Pelo tempo em que eu n&#227;o sabia. Pelas vezes em que me fiz menor para caber onde n&#227;o era meu lugar.</p><p>Esse espa&#231;o nasceu disso.</p><p>Para quem passou a vida inteira se perguntando por que tudo parece t&#227;o mais alto, t&#227;o mais denso, t&#227;o mais urgente do que parece ser para os outros.</p><p>Sou Andrea Salgueirinho. Ainda aprendendo a me tomar como ponto de partida. Cheguei nessa pesquisa pela porta que a maioria chega: pela minha pr&#243;pria hist&#243;ria. Especialista em Neuroci&#234;ncia, terapeuta integrativa, pesquisadora da coragem.</p><p>Toda semana tem uma hist&#243;ria aqui. &#192;s vezes a minha. &#192;s vezes a de algu&#233;m que voc&#234; vai reconhecer.</p><p>Na sexta, dia 5, chega a primeira edi&#231;&#227;o. A hist&#243;ria come&#231;a com uma menina intensa que demorou d&#233;cadas para ter palavras para o que sentia.</p><p>Na sexta, dia 5, come&#231;a.</p><div><hr></div><div class="subscription-widget-wrap-editor" data-attrs="{&quot;url&quot;:&quot;https://cartografiaintensidade.substack.com/subscribe?&quot;,&quot;text&quot;:&quot;Inscreva-se&quot;,&quot;language&quot;:&quot;pt-br&quot;}" data-component-name="SubscribeWidgetToDOM"><div class="subscription-widget show-subscribe"><div class="preamble"><p class="cta-caption">Se isso ressoou, as pr&#243;ximas edi&#231;&#245;es continuam daqui.</p></div><form class="subscription-widget-subscribe"><input type="email" class="email-input" name="email" placeholder="Digite seu e-mail&#8230;" tabindex="-1"><input type="submit" class="button primary" value="Inscreva-se"><div class="fake-input-wrapper"><div class="fake-input"></div><div class="fake-button"></div></div></form></div></div><p></p>]]></content:encoded></item></channel></rss>